Planejar, escolher, abdicar.

“O plano que não pode ser mudado não presta.”
(Publílio Siro, Sentenças)

O que me estimula? O ambiente externo. O que me motiva? O meu propósito. Que também é o meu sonho. Mas, conforme antes mencionado, sonho não é delírio. O sonho é o desejo factível. O delírio é o desejo sem condição de se realizar. Eu, Cortella, não tenho mais condições de fazer várias coisas, por causa da idade, dos limites do corpo, da energia necessária, dos compromissos assumidos.

Eu não posso me colocar hoje como postulante a correr a maratona de Nova York. Posso até ter o desejo, mas não reúno condições que me permitam participar dessa prova. Não poderei fazê-la e não é questão de conhecimento, mas de levar em consideração uma série de circunstâncias relacionadas a essa empreitada. Tampouco basta a oportunidade passar à minha frente, se eu não tiver como dar conta dela. De nada adianta alguém me oferecer agora uma proposta para ser gestor de uma grande corporação, com um alto salário, na Islândia.

Porque eu não posso nem quero ir. Aos 25 anos de idade, talvez eu aceitasse. O sonho é um dos elementos a serem levados em conta para que a gente constitua o olhar sobre a oportunidade. Há situações em que a oportunidade pode passar perto de mim e eu nem prestar atenção, porque não está dentro do meu propósito. Eu não posso imaginar que sou capaz de fazer algo apenas porque sei fazê-lo.

Para eu estipular um objetivo, é necessário que deixe de fazer outras coisas. Desse modo, aos 25 anos, um convite para a Islândia seria uma oportunidade e tanto, hoje seria honroso, mas fora de cogitação. A quantidade de laços profissionais e afetivos que eu tenho me afasta dessa possibilidade. Isso demonstra que o aproveitamento de oportunidade implica abdicações. Quando a pessoa questiona: “Terei de largar a minha família para realizar esse projeto?”. Largar, não. Mas precisará abdicar de um tempo, antes disponível, para dar conta de concluí-lo.

Para fazer um treinamento, um curso, terá de abrir mão de algumas atividades. A própria ideia de escolher implica deixar para trás outras opções.

É impossível escolher tudo.

Quando assisti à primeira versão do filme A fantástica fábrica de chocolate (EUA, 1971. Dir. Mel Stuart), com o Gene Wilder, eu fiquei encantadíssimo.

Mas lembro que, aos 18 anos de idade, ainda me assustou a ideia de ter de fazer escolhas naquela casa de doces. O que eu comeria? Certamente iria me arrepender de alguma decisão, “deveria ter escolhido aquilo em vez disso”. Outro momento inquietante foi quando li O nome da rosa, do escritor italiano Umberto Eco (1932-2016). No final, durante o incêndio, a personagem William de Baskerville só pode salvar alguns livros da biblioteca em chamas. Pois bem, no lugar dele, quais eu escolheria?

Essa ideia da abdicação é dificílima. Vale para o afeto, para a carreira. Toda vez que escolho, eu abdico. Para reduzir o nível de angústia, cabe dizer que a noção de oportunidade tem de ser entendida também como circunstância, e não como ponto definitivo. Isto é, o fato de eu aproveitar uma circunstância e trilhar um rumo não significa que aquela é uma via de mão única. Hoje parte das carreiras é multifacetada. E há um aspecto interessante nisso, que é fazer com que a pessoa não fique reclusa num único trajeto. Tem sido cada vez mais frequente depararmos com profissionais desempenhando atividades em áreas diferentes das que se formaram.

Graduados em Ciências Econômicas que se dedicam à Gastronomia, engenheiros se tornando gestores em empresas, publicitários empreendendo. Antes, muita gente seguia algum caminho porque não tinha escolha. Hoje, não mais. Até profissionais com uma trajetória extensa numa área se permitem enveredar por outros campos. Já encontrei gente que me disse: “Professor, sabe que eu resolvi voltar para a escola depois de velha?”. Eu não concordo com a formulação da frase. Porque o que vem do “depois de velha” é a morte. A pessoa resolveu voltar para a escola “depois de nova”.

O ser mais jovem é sucedido pelo envelhecimento. E o que sucede o envelhecimento é o falecimento. Mas, semântica à parte, é bastante salutar a pessoa persistir em seus projetos de vida. Não importa se antes ou depois da juventude, o que vale é ela buscar o que entende estar em seu horizonte de vida. Eu continuo perguntando para meus filhos, meus netos e para mim mesmo “quais são os planos para o futuro?”. Claro, a nossa extensão de tempo vital é mais um aspecto que temos de considerar para traçar nossos planos. Convivemos com uma altíssima complexidade de variáveis que a vida nos coloca hoje.

Há uma maior interdependência de fatores, que a qualquer momento podem se alterar. Essa condição exige que tenhamos sempre um plano B. A vida no Ocidente, nas grandes cidades, é complexa, tem muitas dobras. É difícil imaginar que, porque eu tracei uma rota, chegarei sem desvios até o ponto final. Determinação, decisão, iniciativa, foco continuam sendo atributos importantes, ainda assim, um conjunto de circunstâncias pode alterar a rota. Uma pessoa sem plano B fica desprevenida, a ela falta previdência. Nós precisamos aprender, como fazem alguns aplicativos, a recalcular a rota.

Mesmo porque, nossa vida está atrelada também ao que está acontecendo em outras nações, aos rumos da economia, da política, à ocorrência de fenômenos naturais. Essa complexidade faz com que eu tenha de conceber rotas alternativas. De fato, é difícil lidar com mais essa demanda. E, além de tudo, o hábito tem uma influência muito forte na disposição das pessoas em pensar outros rumos possíveis para a vida. Algumas dizem “essa é a minha sina”, “não tenho o que fazer, já estou há muito tempo nesse modo”.

Essa forma obnubilada, com a visão obscurecida remonta à origem do termo “bitolado”, que vem de “bitola”, a distância entre os trilhos do trem, que precisa ser sempre daquele jeito. Construir um plano B exige definir a prioridade e o que é acessório, detalhe. Não fazer essa triagem nos aproxima de um pronto-socorro desorganizado. Imagine uma estrutura de proteção à vida sem a capacidade de triagem. Não é casual que a inteligência administrativa, gerencial, tenha trazido para os hospitais, especialmente para a área de pronto atendimento, uma sequência lógica de triagem em que se entende a diferença entre urgência e emergência.

Todo problema com alguém é uma emergência, mas não necessariamente uma urgência, que é “já”. A emergência é “logo”. É preciso ter uma escala de prioridades daquilo que importa. Isso exige planejamento, algo que as pessoas têm muita dificuldade em fazer. Aonde eu quero ir? Quais os passos que preciso dar? O que eu preciso para chegar lá? O que eu faço se isso não der certo? Se não tenho um protocolo de encaminhamento, uma rota desejada e uma visualização de opções outras, isto é (vou usar um termo administrativo de uns trinta anos, mas que até hoje poderia ser útil), um fluxograma, fica difícil seguir.

Mais ou menos um encaminhamento do tipo: “Eu preciso disso, se eu não tiver, sigo para A. Se tiver, vou para B” etc. E, passo a passo, até cumprir o objetivo. Uma árvore de alternativas, que é mais ou menos como funciona um GPS. A nossa grande vantagem como espécie na Árvore da Vida foi a nossa capacidade de continuar inventando galhos. Parte significativa das espécies, até mesmo outros primatas, enveredaram por um galho e nele pararam.

Por Mario Sergio Cortella, do livro “A sorte segue a coragem – oportunidades, competências e tempos de vida”.

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