Chegar vivo… voltar vivo: ideias e dilemas de um ciclista em área urbana.

Estar vivo e permanecer assim.

Essa é minha meta como ciclista, antes mesmo de pensar no prazer da pedalada. Você pode achar estranho, mas tenho bons motivos para isso. Eu explico.

Sou ciclista assíduo desde final de 2013, momento que “comprei” a ideia de um tipo de transporte que pudesse me proporcionar benefícios tanto de saúde quanto financeiro. Comecei a ir para o trabalho usando a bicicleta, alternando os dias da semana porque eu não tinha perna para pedalar 5 dias por semana (e ainda não tenho). Neste início eu era solteiro, e sem muitas responsabilidades; agora, estou muito bem casado, com um filho lindo, e com algumas responsabilidades. Ou seja, PRECISO tem muito mais cuidado nos caminhos urbanos que faço, e tenho histórias que justifica tal pensamento.

História¹: Certa vez, voltando para casa à tarde, eu estava passando por uma parada de ônibus quando sinto do meu lado esquerdo um vento muito forte. Foi um motorista de ônibus que certamente não quis esperar eu passar da parada. O que ele fez? Correu e me ultrapassou tão rápido para poder estacionar na parada que quase não tive tempo de frear. Por muito pouco não bato na traseira do ônibus. Respeito? Cuidado? Nada disso.

História²: Outra vez eu ia para o trabalho pela manhã. Como é aconselhado pedalar no fluxo (sentido) dos veículos, nunca no fluxo contrário, assim eu estava. Pois bem, mais ou menos na metade do percurso que fazia eu vejo mais à frente outro ciclista vindo no sentido contrário, ou seja, na contramão. Eu fiquei tão indignado com aquela situação errada que não consegui segurar minha língua e falei: “Pô amigo, na contramão?” Ele mal olhou na minha cara e falou um sonoro “Vá tomar no c*!”. Tudo isso ocorreu sem descermos das bicicletas. Eu segui minha viagem… mas fiquei pensando: qual a necessidade daquilo? Enfim.

A ideia do modelo de transporte via bicicleta é sensacional: baixo custo de manutenção, sem gasto com combustível fóssil e sua consequente poluição, ausência quase que total de congestionamentos, sem gasto (até agora) com estacionamento. Países desenvolvidos já entenderam que um dos caminhos sustentáveis para as pessoas e para o planeta é a utilização da bicicleta. E vai mais além: quando há estímulo ao uso das bicicletas via políticas públicas, construção de ciclovias e ciclofaixas, e uma gradual e constante transformação cultural, a médio de longo prazo temos MUITO mais a ganhar do que perder.

Só que a realidade urbana é um pouco mais complexa. Imagine uma balança: de um lado todos os benefícios já comentados de se andar de bicicleta, e do outro está a necessidade de preservar a vida. Para muitas pessoas, qual seria a escolha? Está bem claro, assim eu acredito, que seria preservar a vida e não andar de bicicleta. Contudo, é possível, dentro de condições de consciência, respeito, amor próprio e constante manutenção, andar de bicicleta nesta “selva de pedra” para lazer ou para trabalho e outras responsabilidades.

É um desafio, claro! Hoje estamos em uma sociedade que os indivíduos armam-se de todas as formas, e um veículo é uma arma com alto potencial de causar morte. Cada um querendo preservar e garantir seu espaço, deixamos de lado gentilezas e cordialidades que tornariam a convivência mais agradável e benéfica a todos. Pedalar para mim é oxigenar a mente e o corpo, é um exercício que me possibilita uma fuga da comodidade e também é uma oportunidade para conhecer melhor os lugares por onde eu passo. É necessário pensarmos em uma mobilidade sustentável mas também segura. Só assim convenceremos as pessoas de que vale a pena.

Por Ricardo Verçoza – Professor e escritor.

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